Políticas de Saúde


CÂMARA DOS DEPUTADOS
CD (222ª Sessão Plenária, em Comemoração do Dia Mundial do Diabetes)

01/11/2018.

DR. FADLO FRAIGE FILHO

Bom dia a todos. Quero agradecer a oportunidade que a Exma. Sra. Deputada Carmen Zanotto nos propicia com esta sessão importantíssima para a nossa causa do Diabetes.

Agradeço a Dra. Hermelinda Cordeiro Pedrosa, Presidente eleita da Sociedade Brasileira de Diabetes, que tem nos apoiado nesta grande luta que nós todos traçamos.

Professor Andrew Boulton e Prof. Jaime Davidson, muito obrigado. Thank you for staying with us. And I have to recognize that you have been my teacher for twenty-five years and, since then, we have been at every diabetes congress. Nós aprendemos muito com o Prof. James, com o Prof. Boulton durante esses 25 anos, talvez 30 anos. Em todos os congressos mundiais estamos presentes e aprendendo com os professores.

Agradeço também à Dra. Denise Franco, Diretora da ADJ — Associação de Diabetes Juvenil, e ao Dr. Ognev Meireles Cosac, Presidente da Associação Médica de Brasília.

Deputada Carmen Zannoto, diabetes no Brasil, temos muito para fazer, muito. Lamentavelmente, talvez nos últimos 20 e tantos anos, nossos ministros não são médicos, são de outras áreas, o que faz com que os nossos gestores, também em nível estadual e municipal, não entendam a importância e extensão do diabetes.

Fala-se em 14 milhões de pessoas, talvez mais 14 milhões não diagnosticadas, talvez mais umas 14 milhões de pré-diabetes. Nós não temos esses dados. Os dados do VIGITEL — Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico são imprecisos.

O Prof. Jaime falou a respeito da doença cardiovascular. Muito bem, a ONU, em 2011, 2013, fez um alerta aos países para que atentem para as doenças crônicas. E dessas, que nós sabemos, as principais são doenças cardiovasculares. Todo mundo anota principal causa de mortalidade doença cardiovascular.

Em 2016, no congresso que fazemos anualmente em São Paulo, da ANAD — Associação Nacional de Atenção ao Diabetes, o Presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia disse o seguinte:

Trezentas mil mortes foram de doença cardiovascular no ano 2016. Dessas, 80% dos AVC são pessoas com diabetes; 60% das tromboses são pessoas com diabetes; 40% a 50% de enfarte são pessoas com diabetes. Portanto, eu posso dizer o seguinte: a maior causa de mortalidade das doenças cardiovasculares é o diabetes, não reconhecida a sua importância.

Pesquisas nos Estados Unidos e também corroboradas ano passado pelas que fizemos apontam que 44% dos leitos dos hospitais gerais — eu até faço um convite a todos vocês que estão aqui, eminentes colegas e representante de demais entidades — são ocupados por complicações do diabetes. As pessoas não internam por diabetes, internam por insuficiência cardíaca, infarto, AVC, trombose, infecção urinária, infecção pulmonar, e o diabetes está lá na base.

Nós fizemos no ano passado um levantamento dos mil leitos da Beneficência Portuguesa de São Paulo. Todos os pacientes enviados não o foram pela diagnose, mas pela hiperglicemia. Nós temos um sistema computadorizado: 440 pessoas internadas têm hiperglicemia.

Muito bem, agora vamos ao nosso problema efetivo no Brasil, Deputado. Eu agradeço muito o sua apoio porque temos muito a fazer. Falta acesso aos nossos pobres do SUS. O RENAME — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais que nós temos, baseado no que o poder público oferece, está simplesmente defasado há 30 anos.

Agora há muita luta pela Sociedade Brasileira de Diabetes e nossa também pela FENAD — Federação Nacional de Associações e Entidades de Diabetes, pela ANAD e ADJ para que fossem incorporados os ultrarrápidos. Isso depois de 5 anos de luta e de ouvir no nosso congresso a Diretora da CONITEC — Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS dizer que análogos de insulina dão câncer, que eles jamais iriam incorporar, que NPH é igual a basal, que regular é igual à ultrarrápida.

Quer dizer, nós estamos lutando com pessoas que desconhecem a realidade do diabetes no Brasil. Esta doença seguramente é a que mais mata neste País. Nós precisamos realmente renovar o RENAME e também melhorar a assistência dos nossos portadores de diabetes que, entre uma consulta que demora de 4 a 6 meses, dependendo da região do País, um pedido de exame que vai durar mais 3 meses, ou se o infeliz coitado teve um pedido de exame de fundo de olho… Quer dizer, vai demorar mais 3 meses para ele ir a um médico e voltar. E, depois, 1 ano para ser tomada uma conduta de receita.

Daí vem a importância daquilo que nós propagamos e tentamos fazer com o Senador Ronaldo Caiado que são os centros de diabetes, unirmos todos os especialistas num lugar só. Não existe o centro de cardiologia? Não existe o centro de câncer? Mas o indivíduo que tem diabetes precisa ir a uma consulta com oftalmologista, precisa se deslocar para outro lugar, porque naquela cidade não tem o centro. Até ele voltar ao próprio endocrinologista, leva 1 ano.

Então essa é a situação que infelizmente temos hoje. O portador de Diabetes no Brasil, da rede SUS, é o mais prejudicado por falta de assistência, por falta de acesso adequado.

E o interessante disso é que os senhores gestores não têm a medida do custo do impacto das complicações. O Ministério da Saúde não sabe que ele gasta de 10% a 15% só de hemodiálise? Sabe. Mas ele não sabe que 50% daqueles indivíduos que fazem hemodiálise são pessoas com Diabetes. Ele não sabe, por exemplo — e o INCOR tem esses dados —, que 40% de todas as coronariopatias são de pessoas com diabetes.

O hospital em São Paulo, especializado em cardiologia, não sabe quanto se amputa, não sabe quantas dessas pessoas hospitalizadas fazem transplante renal. De 30% a 40% das pessoas que fazem revascularização de miocárdio são pessoas com diabetes. E o pior, esse pessoal todo que recolhia 40% de impostos trabalhando passa a entrar no auxílio-doença e, pelas complicações graves, vai para uma aposentadoria precoce.

Eu tentei, junto com a assessoria do Senador Caiado, ver se existe possibilidade de levantarmos na Previdência quantas pessoas estão aposentadas definitivamente por Diabetes. Não existe esse dado. Quer dizer, há muito que se fazer.

Conto com o seu apoio à causa de Diabetes. Vamos lutar durante estes anos.

Há 35 anos dedico a minha vida à causa do diabetes, porque, como médico especialista e professor universitário, enxerguei outra faceta: só o poder político poderá melhorar este sombrio horizonte que nós temos.

Ou nós mudamos, ou, como a própria resolução da ONU chama a atenção: “Ou vocês dão atenção ao diabetes, ou o dinheiro da saúde pública não será suficiente para pagar as complicações do Diabetes no futuro”.

Muito obrigado. Foi uma satisfação estar aqui com todos.

SRA. PRESIDENTA (Carmen Zanotto)

Muito obrigada por suas palavras, por despertar não só naqueles que aqui estão presentes e já conhecem a causa, as lutas e as dificuldades, mas em todos aqueles que nos acompanham por meio da nossa TV Câmara, nesta sessão solene, o quanto nós precisamos avançar e o quanto nós precisamos ainda lutar para que possamos ter o nosso dia mundial, dia 14 de novembro, como um dia de vitórias, após as longas caminhadas que ainda teremos.

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