Carta ao Editor
Em resposta à entrevista “Ultraprocessados são claramente cancerígenos” O Globo, 29 de abril de 2026
À redação de O Globo,
Escrevo em nome da ANAD (Associação Nacional de Atenção ao Diabetes) para responder formalmente à entrevista concedida pelo oncologista Dr. Antônio Carlos Buzaid a este jornal no dia 29 de abril de 2026, na qual foram veiculadas afirmações sobre adoçantes e edulcorantes que são cientificamente e tecnicamente incorretas e que, dada a abrangência do veículo, merecem correção imediata.
A ANAD representa mais de 17 milhões de brasileiros com diabetes, uma população para a qual os edulcorantes são instrumentos clínicos fundamentais para o controle glicêmico e a qualidade de vida. Quando um médico de grande visibilidade afirma, sem base científica, que adoçantes “afetam o microbioma e devem ser evitados”, causa dano real a pacientes que dependem dessas substâncias para gerenciar diariamente sua condição de saúde.
Quem somos e por que nos posicionamos
A ANAD, a ABRAN (Associação Brasileira de Nutrologia) e a SBAN (Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição) publicaram conjuntamente um Posicionamento Oficial sobre o Uso de Edulcorantes, fundamentado na avaliação crítica das melhores evidências científicas disponíveis, nas normas regulatórias vigentes da ANVISA e nas avaliações dos principais organismos internacionais de segurança de alimentos, incluindo o JECFA (Comitê Conjunto FAO/OMS), a EFSA europeia e a FDA americana. Esse posicionamento é claro: todos os edulcorantes aprovados para consumo humano são seguros, e as afirmações que circulam na mídia sobre riscos de câncer e danos ao microbioma não encontram respaldo na evidência científica de qualidade.
Edulcorantes não causam câncer: o que a ciência estabelece
O Dr. Buzaid afirma que adoçantes “afetam o microbioma e devem ser evitados”, e cita dez gotas de estévia como limite seguro de consumo. Nenhuma dessas afirmações tem fundamento regulatório ou científico robusto.
Os edulcorantes são aditivos alimentares rigorosamente avaliados antes de serem aprovados para consumo. Para cada edulcorante aprovado, as agências regulatórias estabelecem uma IDA (Ingestão Diária Aceitável) calculada em miligramas por quilograma de peso corporal por dia. Esse valor é derivado do NOAEL, o nível sem efeito adverso observado em estudos toxicológicos de longa duração, realizados em pelo menos duas gerações de pelo menos duas espécies distintas de animais. Sobre esse valor, aplica-se um fator de segurança de 100 vezes: divide-se por 10 para considerar diferenças entre espécies e novamente por 10 para considerar variações dentro da própria população humana, incluindo grupos mais vulneráveis, como crianças, gestantes e idosos. Isso significa que, mesmo que uma pessoa consuma 100 vezes o valor da IDA estabelecida para o seu peso, ainda estará dentro da margem de segurança. A segurança não se mede em gotas de estévia. Essa unidade não existe em nenhuma normativa regulatória nacional ou internacional.
Os estudos de consumo populacional, inclusive no Brasil, confirmam consistentemente que a ingestão de edulcorantes permanece muito abaixo das respectivas IDAs em todos os grupos etários avaliados. Essa conclusão foi reafirmada pela revisão global de Martyn et al. (2018), que analisou dados de ingestão da última década em múltiplos países e não encontrou evidências de que os níveis de consumo se aproximem dos limites estabelecidos para qualquer edulcorante.
Quanto ao câncer, não há evidências científicas consistentes que relacionem o consumo de edulcorantes ao desenvolvimento de câncer. Uma análise abrangente, publicada por Pavanello et al. (2023) e que abrangeu dados toxicológicos e epidemiológicos de cinco décadas, avaliou 22 estudos de coorte e 46 estudos de caso-controle. A grande maioria não mostrou qualquer associação entre edulcorantes e risco de câncer. Possíveis sinais isolados, observados em alguns estudos, não foram replicados em outros. O JECFA realizou a terceira reavaliação do aspartame em 2023 e concluiu que não há razão para alterar a IDA previamente estabelecida de 0 a 40 mg por kg de peso corporal. A ANVISA reafirmou a mesma posição. Para consumir aspartame além dessa IDA, um adulto de 70 kg precisaria ingerir entre 9 e 14 latas de refrigerante diet por dia.
A IARC e a distinção essencial entre perigo e risco
A classificação da IARC, braço da OMS para pesquisa em câncer, merece esclarecimento. A IARC classifica substâncias com base na força da evidência de que podem causar câncer, não na magnitude do risco. O aspartame foi classificado como “possivelmente cancerígeno” (Grupo 2B), a mesma categoria que inclui legumes em conserva, samambaia, trabalho em lavanderias e campos eletromagnéticos de radiofrequência como os emitidos por celulares. Essa classificação não implica risco real nas condições de consumo habituais. A diferença entre perigo, a existência potencial de um risco, e risco, a probabilidade real de dano numa determinada dose e contexto de exposição, é fundamental e sua confusão tem consequências diretas na saúde pública.
Edulcorantes e microbiota: o que os estudos realmente mostram
Os estudos que sugerem impacto dos edulcorantes sobre a microbiota intestinal, como o trabalho de Suez et al. (2014), foram realizados majoritariamente in vitro e em animais, com doses muito superiores ao consumo humano típico. A extrapolação desses resultados para a população humana é inadequada, dado que o microbioma de roedores difere substancialmente do humano e as concentrações testadas in vitro não correspondem às exposições dietéticas reais. Uma revisão abrangente de 2019, conduzida por Roberts, Lobach e Rowland, avaliou os estudos existentes em humanos e animais e concluiu que não há evidências substanciais de que o consumo de edulcorantes nas condições habituais afete negativamente a saúde humana por meio da microbiota. Além disso, como cada edulcorante tem estrutura química, perfil de absorção, rota metabólica e de excreção únicos, não é científicamente adequado fazer afirmações genéricas sobre “os adoçantes” como se fossem uma categoria homogênea.
O impacto clínico de afirmações imprecisas sobre pacientes com diabetes
A população com diabetes depende dos edulcorantes para manter o controle glicêmico e a qualidade de vida. Os edulcorantes não elevam a glicemia, não requerem insulina para serem metabolizados e permitem que pessoas com diabetes consumam alimentos com sabor doce sem comprometer seu tratamento. Esse benefício é reconhecido pela American Diabetes Association, pela EASD, pela ALAD, pela SBEM, pela SBD e pela ABESO, entre outras entidades nacionais e internacionais. Quando um médico de alta visibilidade pública recomenda que adoçantes sejam “evitados”, sem distinção de contexto clínico ou embasamento regulatório, coloca em risco a adesão de pacientes ao tratamento e incentiva a substituição dos edulcorantes pelo açúcar, o que tem consequências metabólicas diretas e mensuráveis para essa população.
As entidades ABRAN, ANAD e SBAN reforçam, em seu Posicionamento Conjunto, que o uso de edulcorantes aprovados por agências nacionais e internacionais de segurança de alimentos é seguro para o consumo humano, incluindo crianças, gestantes e pessoas com diabetes. O histórico de uso de mais de um século, a sacarina é utilizada desde o final do século XIX e os rigorosos processos de avaliação científica garantem que esses ingredientes podem ser utilizados com confiança na substituição do açúcar.
Responsabilidade na comunicação científica
A liberdade de expressão e o debate científico são valores que defendemos. Mas a comunicação de risco em saúde em veículos de grande alcance implica uma responsabilidade proporcional. Afirmações inexatas sobre a segurança de substâncias amplamente utilizadas por populações vulneráveis, como pacientes com diabetes, gestantes e crianças, não devem ser veiculadas como se fossem consenso científico. O jornalismo de saúde de qualidade exige que afirmações de especialistas sejam contextualizadas, verificadas e, quando necessário, contrabalançadas pelas posições de entidades regulatórias e científicas competentes.
Colocamo-nos à disposição para oferecer informação técnica qualificada sobre edulcorantes, adoçantes e seu papel na saúde pública brasileira, e solicitamos, respeitosamente, que este jornal publique a presente carta em sua seção de cartas ao editor ou em espaço equivalente, em atenção ao princípio de equilíbrio informativo.
São Paulo, 30 de abril de 2026
Respeitosamente,
Prof. Dr. Fadlo Fraige Filho
Médico endocrinologista
Professor Titular Emérito de Endocrinologia e Doenças Metabólicas
Faculdade de Medicina da Fundação do ABC (FMABC)
Presidente da ANAD (Associação Nacional de Atenção ao Diabetes)
Presidente da FENAD (Federação Nacional das Associações e Entidades de Diabetes)
Ex-Presidente Eleito da IDF/SACA (International Diabetes Federation,
Região South America and Central America) 2023-2024